Amazônia Peruana atrai cada vez mais turistas do mundo todo

PUERTO MALDONADO, Amazônia Peruana – O privilégio de receber duzentos mil turistas anuais inclui a quente e úmida Puerto Maldonado, a mais antiga cidade dos Andes Peruanos, entre as mais cobiçadas rotas turísticas da América do Sul. Eles desembarcam ali para conhecer a Amazônia Peruana. Gastam US$ 150 por pessoa a cada dia de permanência – geralmente dois ou três dias –, cumprem uma vasta programação na região de Madre de Dios e nem sabem o que há de bom no lado brasileiro.

 

Acre e Rondônia, estados mais próximos ao Departamento (ou Província) de Madre de Dios, ainda não “venderam” seus pacotes no exterior e com isso vem perdendo a chance de levar toda essa gente para conhecer aves, insetos, animais, plantas medicinais e índios. Puerto Maldonado, 140 mil habitantes, a capital de Madre de Dios, fica apenas a meia hora de vôo de Cusco e por estrada a viagem dura 18 horas. Prevê-se que a conquista deverá ocorrer após a inaguração da Rodovia Interoceânica, dentro de dois anos.

 

 

 

Estrangeiros são recordistas nas visitas à selva peruana; há quatro vôos diários /M.CRUZ

Sábado, 7 de junho, 11h30 locais: pessoalmente, Pasko Kisic Nadramia, 66 anos, o croata que administra o Aeroporto Internacional Padre José Aldamiz, vai ao encontro dos passageiros alemães, americanos e australianos que desembarcam procedentes de Lima para chegar a Cusco ou vice-versa.

 

Quatro vôos diários de Boeing 737-700 da LAN trazem os turistas à capital desta província. De Maldonado a Cuzco a passagem aérea custa cerca de US$ 60. Até a capital peruana o bilhete custa US$ 110. “La región de Madre de Dios, denominada Capital de la Biodiversidade del Perú y Patrimonio Ecológico de la humanidad, en razón de sua grande riqueza natural y cultural, es actualmente el destino mas solicitado por la demanda internacional como destino ecoturistico de primer orden” – alardeiam as autoridades locais aos deputados da Comissão da Amazônia da Câmara, auditores da Secretaria da Receita Federal e empresários acreanos que chegam num avião EMB 145 da FAB para encerrar o Seminário Internacional “Saída para o Pacífico e Áreas de Livre Comércio”, sobre oportunidades de integração e desenvolvimento. Ao todo, 60 pessoas. 

 

Os turistas são aguardados por guias das empresas locais. Saem do aeroporto direto para o hotel, embarcando em jardineiras ou no motocar, que não é coqueluche, mas o meio de transporte mais usado na cidade. Puerto Maldonado tem poucos automóveis, a maioria de suas casas são coloniais e ainda se vê poeira nas ruas, apesar de grande parte ser asfaltada.

 

 

 

Táxi popular circula o dia todo: corrida entre o aeroporto e a cidade custa seis sólis /M.CRUZ

 

Motocar substitui o automóvel   

 

Os poucos automóveis existentes circulam entre centenas de motocar, um pequeno triciclo motorizado, coberto de lona, que serve de mototáxi e no qual o passageiro paga entre sete e oito sólis (US$ 3) pela corrida do aeroporto a qualquer ponto da cidade. “As cidades da selva só usam motocar”, explica o gerente regional de Desenvolvimento Social, Alfredo Herrera Flores, 43 anos. Versátil, entusiasta, paciente e perseverante, ele distribui as 24 horas do dia em atividades que também contemplam os setores de habitação, saúde e comunidades nativas. 

 

 

Via rodoviária, chega-se na cidade depois da travessia do caudaloso rio Madre de Dios, o mesmo que penetra no Estado de Rondônia com o nome de rio Madeira, o maior afluente da margem direita do rio Amazonas. O rio Madre de Dios corre por 655 quilômetros e ao longo de suas margens são apreciadas árvores médias e camalotes. Nelas vivem lagartos, aves e peixes: saltón, zúngaro, doncella, sábalo, puma zúngaro, carachama, boquichico, corvina e el shirsuy. Um dos seus principais afluentes é o rio Tambopata, de 402 Km, com nascente em Puno (ao norte do Lago Titicaca), onde se denomina Chicayllane. 

 

 

Mendes, Petecão e o diretor do DNIT, Miguel de Souza vêem a chegada de estrangeiros Quem vê Cusco, vê Maldonado

 

 

 

As boas-vindas são apresentadas em números de danças por meninos e jovens do Clube de Arte Nativo Espiritus de la selva. Ao som de flauta e tambor, eles se movimentam para todos os lados e ganham aplausos. O calor não lhes afeta. As crianças dançaram na frente do local da reunião, o Embardero Turístico Madre de Dios, na margem direita do rio com o mesmo nome; os jovens dançam em seguida, no pátio interno.

 

 

“Sabia dessa invasão de estrangeiros desde a primeira vez que vim aqui, no início desta década”, comenta o diretor de Planejamento do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes, o ex-deputado Miguel de Souza. Ao lado dele, os deputados Moreira Mendes (PPS-RO) e Sérgio Petecão (PMN-AC) acompanham o movimento no aeroporto e se surpreende com tanta gente.

 

“A estatística mostra que 60% dos que vêm a Maldonado visitam Cusco, e muitos até ouvem falar da Amazônia Brasileira, mas não encontram meios e atrativos para visitar o Acre e Rondônia”, observa ainda Souza. Segundo Pasko Nadramia, os grupos norte-americanos, britânicos, russos, alemães e ucranianos constituem a maioria dos visitantes, junto com os próprios peruanos. Seguem-se os espanhóis e europeus em geral. Depois vêm os orientais, principalmente coreanos e japoneses.  

 

Brasileiros e peruanos: laços mais  fortalecidos com a Rodovia Transoceânica /M.CRUZ

A integração sul-americana

já é festejada em Maldonado

 

 

PUERTO MALDONADOPuerto Maldonado – Estamos num lugar onde se fala a língua quéchua e mais quatro: hakmbut, takana, pano e arawak. Cerca de 10 mil indígenas povoam 29 comunidades nativas da região e com isso alimentam uma enorme riqueza cultural. No começo da tarde a comitiva de autoridades brasileiras é recebida com discursos, apresentação cultural e almoço no Embardero Turístico.

 

 

Komori, um governador entusiasta /M.CRUZ

Depois de ouvir o discurso do presidente da Frente Parlamentar Brasil-Peru, Ilderlei Cordeiro (PPS-AC), o governador Santos Kaway Komori, 69 anos, franzino e atento a tudo o que dizem os visitantes, declara: “A luta de vocês pela integração é também a nossa luta; vamos vencê-la!”. Komori se refere à iniciativa para a Integração da Infra-estrutura Regional da América do Sul (IIRSA, na sigla em espanhol), lançada em 2000, em Brasília, numa reunião com a presença dos 12 presidentes sul-americanos.

 

Na verdade, os esforços pela integração nasceram antes dessa iniciativa, com o objetivo superar os obstáculos geográficos da região com uma malha de estradas, vias navegáveis e redes de distribuição de energia e comunicação.  

 

 

A IIRSA vislumbrava inicialmente dois conjuntos de iniciativas isolados, embora relacionados. Em um deles, o conceito de eixos de desenvolvimento seria empregado para identificar regiões da América do Sul nas quais grupos de projetos inter-relacionados contribuiriam para o desenvolvimento sustentável. O outro focalizaria processos que envolvem projetos para a remoção dos gargalos reguladores, operacionais e institucionais que impedem a integração física. A resposta veio com a construção da Rodovia Interoceânica, a “Rodovia do Pacífico”, nas Cordilheiras, um verdadeiro desafio à geografia.

 

 

Pasko, administrador do aeroporto /M.CRUZ Parques nacionais

 

No centro do Embardero Turístico, o centro de reuniões e negócios, a comitiva ouve relatos e assistem a audiovisuais que revelam as riquezas da Amazônia Peruana. A diretora regional de Comércio Exterior e Turismo, Yenine María Ponce Jara, dá uma aula de turismo e biodiversidade, mostrando essas atividades como alternativas de desenvolvimento. Ela destaca os parques nacionais – del Manu, Bahuaja Sonene e Tambopata – e das reservas Amarakaeri e Alto Purus –, situadas no interior dos 85,1 mil quilômetros quadrados da floresta do sudeste peruano, na fronteira com o Brasil.   

 

 

Cerca de 30 hotéis e hospedarias e diversas empresas de turismo receptivo aguardam os visitantes. De Maldonado a Salvación (Província de Manu) a viagem dura uma hora via terrestre até Puerto Laberinto e dali. A distância entre Rio Branco e Maldonado é de 573 quilômetros. O percurso de 250 quilômetros entre Iberia-Iñapari (Província de Tahuamanu) e Assis Brasil (Acre) é feito em cinco horas pela Rodovia Interoceânica. Os 531 Km entre Cusco e Maldonado são vencidos em 16 horas de ônibus e os 2,1 mil Km, de Lima a Arequipa, Cusco e Maldonado, em 38 horas.

 

 

Universidade Andina, um dos pilares do Ensino Universitário peruano /M.CRUZ

Bienvenidos! lê-se nas placas. O gerente de desenvolvimento social Alfredo Flores puxa o repórter para a sombra de uma árvore e conta as conquistas de sua gente, que atualmente dispõe de dois institutos tecnológicos e três universidades (Amazônia, nacional), Andina (privada) e San Antonio (extensão de Cusco). Elas formam engenheiros florestais, advogados, enfermeiros, contadores, administradores, engenheiros de sistemas de informática e técnicos agrícolas.

 

Segundo Flores, o governo peruano descentralizou todos os setores, facilitando o dia-a-dia da saúde e da educação principalmente. “Era tudo vertical e agora investimos integralmente nessas áreas, com administração direta”, afirma. Está satisfeito e destaca a maior conquista: “Temos 98% do povo alfabetizado”. Preocupa-lhe ainda a mortalidade infantil, que se situa numa taxa de 22%.

 

 

 

Jorge (d): saudades de outra fronteira /M.CRUZ Calmamente, o agente de saúde Jorge José Gutierrez del Carpio, 60, se aproxima para reforçar a campanha de vacinação contra a hepatite. Distribui bótons e engata uma conversa. Entre os motivos de sua felicidade em trabalhar na região de Madre de Dios há 20 anos, fala bem de sua terra natal, Tacna, na fronteira sul peruana com o Chile. “Estou aqui, mas o meu coração também bate lá”, diz. A comitiva deixa a cidade no fim da tarde, com céu azul. Já se não se vê aviões da LAN. Apenas o EMB 145 da FAB encontra-se ali estacionado e com motores ligados para o retorno a Brasília. Lá estão novamente as principais autoridades para as despedidas, Komori à frente.

 

Voltem sempre! – diz o sorridente governador, que caminha até a beira da pista para novamente saudar seus antigos e novos conhecidos.

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